Pássaros não falam

Pássaros não falam.
Por Frei Cristiano Freitas, OFMConv.

Repórter: Qual é a sensação que você tem quando voa?
Atleta: Isso não se fala. É coisa de pássaro, e pássaro não fala!

Esse foi o diálogo de uma reportagem sobre o primeiro voo de Asa Delta no Brasil. A repórter entusiasmada com o feito, logo se lançou na pergunta, a fim de extrair do atleta o máximo de conteúdo para a sua matéria. Nessas horas, quanto mais o entrevistado revelar, mais chance a reportagem terá, de ser um sucesso. Contudo, a resposta do ‘homem pássaro’ (assim chamado na época) foi de uma profundeza encantadora.

Passei o dia todo meditando sobre a emoção daquele aventureiro, e principalmente, na sua incapacidade de expressá-la através das palavras, ou ainda, de um simples silogismo tão usado para definir o indefinível.

As coisas dos pássaros não se contam… Como então saberemos o que se passa com eles? Só vivendo como elas! Entrar na experiência, observar, se lançar nos voos, e sem medo permitir que a sua realidade se misture com a nossa.

Muitos ainda insistem em viver num mundo de respostas prontas e acabadas. Desejam resultados diferentes para atitudes iguais. Esperam por opiniões terceiras para se posicionarem no mundo. Esses, nunca saberão voar. Nunca sentirão o gosto da ousadia. Nunca se darão a oportunidade de enxergar a vida de forma diferente.

Em nossa espiritualidade, a ‘lógica’ é a mesma. Não se pode querer conhecer a Deus somente por ‘ouvir falar’. Nosso Senhor Jesus Cristo perguntou aos discípulos o que os outros diziam dele, mas a principal resposta tinha que ser pessoal, ou seja, cada discípulo deveria conhecer o Senhor a partir da convivência e da intimidade (cf. Mc 8, 27-29). De muitas coisas da nossa experiência espiritual não se fala. As palavras não conseguem abarcar todo o mistério que nos cerca a cada dia. São inexplicáveis, e por isso mesmo é necessário se lançar na experiência, no voo. É impossível ser um cristão vivendo somente de conceitos. Jesus Cristo é uma PESSOA VIVA e PRESENTE, e não uma ideia pronta que permeia nossa existência.

Dois exemplos da Palavra de Deus nos mostram claramente qual deve ser o caminho para tal intimidade. No Evangelho de São Lucas (13, 25-27), alguns homens cobram de Nosso Senhor uma atenção especial, pelo fato de terem feito refeições com Ele nas praças e escutado seus ensinamentos. Porém, Jesus Cristo é muito claro em sua observação, e logo descarta esse tipo de pseudo-espiritualidade dizendo: “afastai-vos de mim, vós todos, que cometeis injustiça!”.

 

Àqueles que ainda insistem em viver nas praças, olhando os passos da vida, logo percebem que estão perdendo a Vida (Jesus Cristo) que se dá na experiência da intimidade.

 

No evangelho de São João (4,1-42) temos a experiência da mulher que conhece o Senhor e sai para anunciar essa grandiosa descoberta à sua cidade. Todos vêm ao encontro de Jesus e se encantam com sua presença, pois experimentam o poder e o amor do Mestre. Estando todos diante de Cristo, alguém levanta a voz, e catequeticamente ensina o caminho, para uma verdadeira vida em Deus. Eis o ensinamento: “já não é por causa do que tu (mulher) falaste que cremos. Nós próprios o ouvimos, e sabemos que esse é verdadeiramente o salvador do mundo (Jo 4, 42).

Almejar uma experiência sagrada, somente a partir de uma fé conceitual e distante, é negar todo o esforço de Deus para se aproximar de nós. Esforço que chega ao extremo de se fazer homem, passando pelas mesmas provações que nós, com exceção do pecado (cf. Hb 4, 15). Tudo isso fez o Senhor para nos ensinar a adentrar na trama da vida e nos conduzir aos mais altos graus da divindade. Não existe, portanto, outra maneira de se aproximar e experimentar esse Deus, a não ser a partir de uma entrega total ao seu plano de amor, que inclui, neste caso, lançar-se ao voo e não somente querer saber como os outros se sentem quando estão voando.

A curiosidade em relação às coisas santas, já é, sem dúvida, um passo para a experiência, mas nunca pode ser encarada como o suficiente. O esforço contínuo deve ser sempre o de ‘avançar para águas mais profundas’, e nunca ficar à margem, especulando sobre as profundezas!

Deseje saber sim das ‘coisas dos pássaros’, mas almeje antes de tudo, arriscar a voar, e assim você terá a mais completa resposta e nunca mais necessitará das formulações dos outros para saber, com autoridade, o que ‘falam os pássaros’.

 

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